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segunda-feira, 23 de maio de 2011

O povo brasileiro tiririca com a democracia


Mais uma figura folclórica ingressou no congresso, instituição, diga-se de passagem, cuja credibilidade está quase completamente maculada fronte ao imaginário nacional. No geral, a população, alguns analistas políticos, vê a figura do parlamentar como prova cabal do descrédito total no sistema democrático. Muitos comungam no combate ao sujeito e aos que votaram no sujeito e atribui todas as mazelas do congresso ao Tiririca e aos 6% dos eleitores que votaram nele. Entretanto, este é o preço que todos nós pagamos pela democracia. E se aquela figura nos representa frente à câmara é porque há alguma demanda a ser superada. Tal demanda não é pura e simplesmente ignorante, irracional ou politesca. A figura do Tiririca representa a descrença no sistema democrático brasileiro e nos valores morais que deviam sustentar nossa sociedade. Representa, sobretudo, uma apatia política e descrédito total na política como oportunidade de mudar nossa própria realidade. A figura do cearense nunca foi tão oportuna como nestas eleições. A corrupção está espalhada em toda nossa sociedade, porém há ainda as últimas fronteiras morais das nossas consciências. Com as formas de controle adequadas podemos evoluir e aprender nos educar e educar nossas futuras gerações a serem mais participativas, críticas e democráticas. Precisamos, sobretudo, deixar a resignação do insuperável e começar a agir microcosmicamente a fim de ir obtendo pequenos resultados. Diante de tantas denuncismos, tanta corrupção, seremos nós induzidos a desacreditar completamente na democracia? Quem ganha com essa apatia? Enquanto imaginamos a figura do político como profano, muitas figuras se repetem nos cenários políticos. Cada vez mais nos ostracisamos. É urgente admitir que política não é somente o espaço eleitoral.

Um segundo aspecto a ser considerado é o fato que esta descrença não está pautada apenas nos agentes políticos e em nossa cultura política, mas no próprio sistema eleitoral que torna a compreensão das regras quase um enigma. O voto sem a devida cidadania torna-se uma ferramenta tão inútil quanto o político corrupto, uma vez que o eleitor pensa em votar em um candidato e elege vários de uma coligação sem ao menos saber. Aproprio-me de Norberto Bobbio para argumentar que a democracia precisa ter suas regras do jogo bem definidas. A eleição de Tiririca mostra que estas regras estão ficando obsoletas.

Ademais, não se considera que 94% da população não voltou no candidato. Se este percentual não foi receptivo às propostas dele é porque muitos abominam o patrimonialismo, o nepotismo, o personalismo, as falsas promessas e a oratória disfarçada de corrupção tão caricatamente humorada na fala da personagem. A democracia não está completamente perdida. Portanto, será que o problema reside na figura do Tiririca e na irreversibilidade da corrupção?



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