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terça-feira, 6 de setembro de 2011

Cão sem raça definida e a interdisciplinaridade

Por Roniel Sampaio Silva

Sociólogo

Certa feita um cão rumava às margens das convenções. Este era determinado, astuto e experiente, porém o canino tinha uma trajetória, para muitos, conturbada. Tal flâneur, filho de pastores alemães premiados e conhecidos, era desdenhado tão somente porque não se reconhecia nem como Pastor Alemão, nem Fila Brasileira, nem Terrier ou Chihuahua. Ele simplesmente, não abriu mão da referência de seus pais e buscou construir sua própria identidade. Em certo momento denominou-se “Canino”. O cão cosmopolita vislumbrava desfragmentar as matilhas e as raças. Era muito solícito e conversava com todos independentemente de raça ou matilha, entretanto, os demais cães – territorialistas - o viam com desconfiança e ameaça. Sempre que seus espaços eram visitados pelo andarilho, este era prontamente enxotado sob alegação de não pertencer àquela matilha.

Seguramente o cão errante achava que embora suas raízes fossem de pastor alemão, ele poderia transcendê-las de maneira a comungar de várias matilhas simultaneamente à medida que peregrinava. Indubitavelmente sua felicidade estava no nomadismo. Afinal, ser pastor alemão implicava numa religião e uma nacionalidade. Ele queria apenas ser um cão e trilhar seu caminho ao caminhar. Inventar e reinventar percepções e habilidades: caçar, pescar, correr e farejar sem especializar-se na habilidade da raça, cujo competência era pautada no crivo disciplinar da matilha. Desse modo, para cada necessidade e vontade far-se-ia uma visita para cada matilha diferente. Paradoxalmente, na medida em que ele passeava e sentia-se pertencente às elas mais estas o boicotavam.

Assim, a convicção canina o fez pagar o preço da beira do ostracismo dos seus pares. Afinal, não existia maior estigma do que ser conhecido como “CSRD”: Cão Sem Raça Definida. Lamentavelmente, foi assim que o “Canino” ficou conhecido. Embora ele quisesse existencialmente ser o mais cosmopolita dos cães, passear entre todas as matilhas para entranhar experiências, habilidades e impressões sob os vários pontos de vista, o preço pago por ele foi ficar à margem nas taxonomias de modo que acabou por ser categorizado pelo afã dos outros como “cão sem raça definida” ou vira-latas por não se enquadrar em nenhuma raça.

Tamanho foi o estigma que ele passou a ser o perseguido pela inquisidora carrocinha, cujo trabalho fatídico se resumia a capturá-lo, categorizá-lo, encarcerá-lo junto aos demais cães pastores alemães na esperança que um dia ele se fidelizasse restritamente à este grupo.

Ao que parece, o cãozinho ainda sob ameaça de prisão, alguém está disposto a adotá-lo?

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